Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (41)
5. Palavra perfeitamente íntegra A Palavra de Deus reflete o Senhor, que se manifesta na criação com ordem e beleza. Por isso, depois de contemplar a sinfonia da criação, o salmista celebra a perfeição e a plenitude da sua Lei: “A lei do SENHOR é perfeita (~ymiT’) (tamiym)[1] e restaura a alma; o testemunho do…
5. Palavra perfeitamente íntegra
A Palavra de Deus reflete o Senhor, que se manifesta na criação com ordem e beleza. Por isso, depois de contemplar a sinfonia da criação, o salmista celebra a perfeição e a plenitude da sua Lei: “A lei do SENHOR é perfeita (~ymiT’) (tamiym)[1] e restaura a alma; o testemunho do SENHOR é fiel e dá sabedoria aos símplices” (Sl 19.7).
Palavra que de nada carece
Calvino resumiu essas verdades ao dizer: “Ela não carece de nada que seja indispensável à perfeita sabedoria”.[2]
A Palavra é suficiente para nossas necessidades, em todos os tempos e circunstâncias da existência. Nada lhe precisa ser acrescentado. Ela é perfeita (Tg 1.25).[3] “A glória da Bíblia é que ela é suficientemente para cada época e suficiente para cada pessoa”, exulta Schaeffer (1912-1984).[4]
Temos aqui um argumento a favor da doutrina enfatizada pela Reforma: Sola Scriptura. A Palavra de Deus é completa; não necessita de adendo, atualização ou revisão. Perfeita em tudo quanto Deus determinou que realizasse, ela é plenamente digna de confiança.
Os princípios bíblicos reunidos, interpretados contextualmente e aplicados, são suficientes para nos dirigir sabiamente de forma preventiva, orientadora e restauradora em meio a um mundo de incertezas e contradições.
Restaura a alma
A Palavra de Deus é perfeita e suficiente: alcança toda a nossa vida, supre nossas necessidades e, pelo Espírito, é instrumento de nossa regeneração e santificação.
O salmista assim se expressa: “A lei do SENHOR é perfeita e restaura (bWv) (shub) a alma….” (Sl 19.7). O verbo traduzido por ‘restaurar’ (Lm 1.11) pertence ao campo semântico de voltar, retornar ou fazer voltar, podendo, conforme o contexto, expressar a ideia de “refrigerar” (Sl 23.3), “restabelecer” (Sl 60.1; 85.4), “converter” (Ez 14.6).
Deus nos converte por meio de sua Palavra (Rm 10.17; Tg 1.18,21; 1Pe 1.23). Ela nos coloca na direção certa, educa-nos e nos aperfeiçoa. Nos momentos mais angustiantes e sufocantes da vida, por meio dela, Deus também nos traz refrigério. Deus tira nossa alma do exílio e a conduz à viva alegria de sua presença. A Palavra confere sentido à nossa vida e, por vezes, faz brotar alegria em meio ao caos.
Deus, com sua Palavra, dá-nos alento, trazendo-nos para junto de si mesmo a fim de que, confiados nele, possamos continuar a nossa caminhada. Deus transforma nosso desalento espiritual em renovado fervor para o serviço.
Fôlego restaurador
Na Palavra de Deus, reencontramos o fôlego restaurador da vida. Podemos estar, como o salmista, “apegados ao pó” em nosso abatimento; ainda assim, o Senhor nos ergue por meio de sua Palavra e de suas promessas, concedendo-nos novo ânimo, sustentado pela certeza de que ele reina e está presente conosco.
Calvino percebe nessa ação restauradora da Palavra uma obra do próprio Deus: “Deus emprega sua Palavra como instrumento para a restauração de nossas almas”.[5]
É pela Palavra que Deus nos faz conhecer suas promessas e, por meio delas, nos chama à fé. Assim, nossa restauração não repousa em circunstâncias favoráveis nem em nossas próprias forças, mas na fidelidade daquele que prometeu.
Por isso, onde há promessa, a fé encontra fundamento, consolo e fortalecimento. Como observa Calvino, “onde há promessa, ali a fé tem sobre o que se apoiar e com que se consolar e se fortalecer”.[6] Antes de nos aproximarmos de Deus em oração, precisamos conhecer suas promessas, pois são elas que alimentam a fé e nos dão confiança para buscá-lo.
A Palavra, portanto, não apenas nos instrui; ela também nos restaura, renovando nossa fé nas promessas de Deus e conduzindo-nos novamente à esperança, à confiança e à comunhão com Ele.[7]
Somente o Espírito, por meio da Palavra, pode nos alimentar, corrigir e animar. Por ela, ele nos concede novo vigor e nos sustenta nas promessas de Deus. Por isso, usando uma expressão de Lutero (1483-1546), afirmamos que podemos prescindir de tudo, menos da Palavra.[8]
1. O caminho de Deus é íntegro
Não há contradição em Deus nem na sua forma de dirigir a história. A perfeição permeia toda a sua obra como expressão daquilo que Deus é em si mesmo. Por isso, as suas orientações são completas, sem mistura: “O caminho de Deus é perfeito (~ymiT’) (tamiym); a palavra do SENHOR é provada; ele é escudo para todos os que nele se refugiam” (Sl 18.30).
Ainda que possamos, pela Graça Comum de Deus, encontrar aqui e ali entre os homens elementos de verdade, somente na integridade da Palavra temos o absoluto de Deus para todos os desafios próprios de nossa existência. Por isso, quem segue a Palavra de Deus, e busca praticá-la com integridade de coração, será irrepreensível em seu caminho, em todas as circunstâncias.
2. Na integridade da Palavra não há motivo de vergonha
Quando assimilamos de coração a Palavra de Deus e a adotamos com integridade, independentemente das consequências e dos juízos dos outros, não teremos do que nos envergonhar.
Assim como o insensato alimenta em seu coração a afirmação de que não há Deus,[9] o salmista deseja profundamente algo oposto. Ele diz: “Seja o meu coração (ble) (leb) irrepreensível (~ymiT’) (tamiym) nos teus decretos, para que eu não seja envergonhado.” (Sl 119.80).
Na integridade da Palavra não há engano ou mascaramento da verdade, antes, temos o absoluto de Deus para todas as nossas circunstâncias. Por isso, quem segue a Palavra de Deus buscando praticá-la com integridade de coração, será irrepreensível em seu caminho em todas as circunstâncias. Esse será bem-aventurado:
Bem-aventurados os irrepreensíveis (~ymiT’) (tamiym) no seu caminho, que andam (%l;h’) (halak) na lei do SENHOR 2Bem-aventurados os que guardam as suas prescrições e o buscam (vrd) (darash)[10] de todo o coração (ble)(leb); 3 não praticam iniquidade e andam (%l;h’) (halak) nos seus caminhos. (Sl 119.1-3).
Bem-aventurado aquele que teme ao SENHOR e anda (%l;h’) (halak) nos seus caminhos! (Sl 128.1).
3. Deus deseja que sejamos íntegros para com a sua Palavra
Como somos limitados, falhos, inclinados ao mal, devemos suplicar a Deus que nos dê discernimento quanto ao caminho que devemos seguir. Esta era a súplica do salmista: “Faze-me ouvir, pela manhã, da tua graça, pois em ti confio; mostra-me o caminho por onde devo andar ($l;y”) (yalak), porque a ti elevo a minha alma.” (Sl 143.8).
O caminho para sermos íntegros ‒ inteiros e não fragmentados ‒, é buscar com sinceridade e compromisso a instrução na Palavra perfeita do Senhor.
Devemos buscar o caminho da perfeição. Davi relata o seu sincero projeto de reinado: obediência a Deus. Em outras palavras: seguir com discernimento e integridade o perfeito caminho do Senhor: “Atentarei sabiamente (lk;f’) (sakal)[11] ao caminho da perfeição (~ymiT’) (tamiym). Oh! Quando virás ter comigo? Portas a dentro, em minha casa, terei coração sincero (~To) (tom).[12]” (Sl 101.2).
A vida cristã envolve necessária e essencialmente integridade. Integridade significa busca da verdade, compreensão e vida. Nenhum de nós é absolutamente íntegro, contudo, é impossível ser cristão sem esta busca de todo coração.[13]
Contudo, cabe aqui uma observação. Podemos ser íntegros para com aquilo que não tem integridade. Em outras palavras, podemos ser totalmente sinceros em relação ao erro por não percebermos o nosso equívoco. A nossa integridade, ainda que seja altamente recomendável, quando ela estiver por engano, depositada em algo de consistência frágil, movediça e enganosa, traz grande frustração.
Pense no ardor do jovem Saulo em perseguir a Igreja de Deus pensando justamente estar prestando um serviço que glorificasse a este mesmo Deus. Quanta dor e sofrimento ele causou a inúmeros cristãos sinceros e a ele mesmo quando, por graça, descobriu o seu equívoco e, convertido ao Senhor, passa a pregar com fidelidade e inteireza de coração a Palavra, ensinando ser Jesus o Cristo e Senhor (At 9; 22; 26; 1Co 15.9).
Deste modo, o mesmo Deus que exige de nós integridade, revela-se de forma coerente e verdadeira conforme a sua natureza, concedendo-nos a sua Palavra para que a conhecendo, conheçamos o seu Autor.
4. Deus abençoa os que preservam em seu coração a integridade de sua Palavra
“Porque o SENHOR Deus é sol e escudo; o SENHOR dá graça e glória; nenhum bem sonega aos que andam retamente (~ymiT’) (tamiym).” (Sl 84.11).
Adotar o caminho de Deus é sempre um testemunho de confiança em Deus e nas suas promessas, certos de sua soberania, bondade, amor e justiça: “Abomináveis para o SENHOR são os perversos de coração, mas os que andam em integridade (~ymiT’) (tamiym) são o seu prazer (!Acr’)(ratson)” (Pv 11.20).[14]
Deus se alegra em nossa obediência, em que atentemos para a sua vontade. A santa satisfação de Deus redunda em bênçãos.
Deus tem prazer em manifestar benevolência para com o seu povo: “Pois tu, SENHOR, abençoas o justo e, como escudo, o cercas da tua benevolência (!Acr’)(ratson).” (Sl 5.12).
Obedecer é mais relevante do que o celebrar ritualisticamente. O culto se manifesta em obediência aos preceitos de Deus.
Calvino (1509-1564) de forma bíblica, declara: “Ninguém é verdadeiro adorador de Deus senão aqueles que reverentemente obedecem a Sua Palavra”.[15]
A felicidade está no apego integral à Palavra de Deus: “Bem-aventurados os irrepreensíveis (~ymiT’) (tamiym) no seu caminho, que andam (%l;h’) (halak) na lei do SENHOR” (Sl 119.1).
Quando declaramos que o Senhor é o nosso pastor, estamos dizendo que o nosso Pastor nos fala e dirige por meio de sua Palavra que é suficiente para nos orientar e conduzir em nossa vida.
Maringá, 30 de agosto de 2026.
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa
[1]A ideia da palavra traduzida por perfeita (Cf. Sl 18.30) tem também o sentido de aperfeiçoar (Sl 18.32); retidão (Sl 101.6); irrepreensível (Sl 119.1,80); inculpável (2Sm 22.24). Ela também se refere aos animais que não tinham defeito: “No terceiro dia, oferecereis onze novilhos, dois carneiros, catorze cordeiros de um ano, sem defeito (~ymiT’) (tamiym)” (Nm 29.20). Quanto a uma breve indicação deste termo como ocorre na Septuaginta, veja-se: Robert B. Girdlestone, Synonyms of the Old Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, (1897), Reprinted, 1981, p. 96-97.
[2] João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, [Sl 19.7], p. 424.
[3]“Mas aquele que considera, atentamente, na lei perfeita, lei da liberdade, e nela persevera, não sendo ouvinte negligente, mas operoso praticante, esse será bem-aventurado no que realizar” (Tg 1.25).
[4] F.A. Schaeffer, O Deus que intervém, São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 251.
[5]João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 19.7), p. 425.
[6]João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 4, (IV.12), p. 5. Estudando o Salmo 42, quando o salmista em meio às aflições, demonstra a sua fé no livramento de Deus, Calvino comenta que esta certeza não é “uma expectativa imaginária produzida por uma mente fantasiosa; mas, confiando nas promessas de Deus, ele não só se anima a nutrir sólida esperança, mas também se assegura de que receberia infalível livramento. Não podemos ser competentes testemunhas da graça de Deus perante nossos irmãos quando, antes de tudo, não testificamos dela a nossos próprios corações.” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 2, [Sl 42.5], p. 264).
[7] Cf. João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 2, [Sl 65.2], p. 607.
[8]“A alma pode prescindir de todas as coisas, menos da Palavra de Deus, e fora da Palavra de Deus nada mais pode auxiliá-la. Quando, porém, ela possui a Palavra, de nada mais necessitará, pois na Palavra ela encontrará satisfação, alimento, alegria, paz, luz, ciência, justiça, verdade, sabedoria, liberdade e todos os bens em abundância” (Martinho Lutero, Da Liberdade do Cristão: Prefácios à Bíblia, São Paulo: Fundação Editora da UNESP. 1998, p. 27) (Escreveu em 1520).
[9]“Diz o insensato (lb’n”) (nabal) no seu coração (ble) (leb): Não há Deus (~yhil{a/) (elohim)….” (Sl 14.1).
[10] Conforme já vimos, a palavra tem o sentido de procurar com integridade e compromisso.
[11] Agir com inteligência e discernimento. Sobre a palavra, vejam-se: William Gesenius, Hebrew-Chaldee Lexicon to the Old Testament, 3. ed. Michigan: WM. Eerdmans Publishing Co. 1978, p. 789-790; Louis Goldberg, Sakal: In: R. Laird Harris, et. al. eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 1478-1480; Robert B. Girdlestone, Synonyms of the Old Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, (1897), Reprinted, 1981, p. 74, 224-225.
[12]Como vimos, a palavra tem o sentido de: Integridade (1Rs 9.4; Sl 7.8; 26.1,11; 37.37); sinceridade (Gn 20.5,6; Sl 25.21); pacato (Gn 25.27); ajustar (Ex 26.24). A palavra (~To)(tom) é da mesma raiz de (~ymiT’) (tamiym), (~m;T’) (tamam): ser completo, estar terminado.
[13]“Para se viver com significado, é necessário descobrir a verdade, descobrir a realidade; uma vez descoberta, temos de viver em fidelidade para com a verdade. A integridade e a busca da verdade andam de mãos dadas” (Charles Colson; Harold Fickett, Uma boa vida, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, p. 174).
[14]“O semblante alegre do rei significa vida, e a sua benevolência (!Acr’) (ratson) é como a nuvem que traz chuva serôdia” (Pv 16.15).
[15]João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 103.18), p. 603.
