DAVIS, Eryl . Maldade oculta:
uma resposta bíblica pastoral para o abuso doméstico. São Paulo, SP: Cultura Cristã, 2026 O livro Maldade Oculta trata de um tema sensível e negligenciado no contexto das igrejas cristãs: a violência doméstica. Não raras vezes, a igreja deixou de reconhecer e de responder de modo bíblico e pastoral ao abuso, contribuindo, ainda que involuntariamente,…
uma resposta bíblica pastoral para o abuso doméstico. São Paulo, SP: Cultura Cristã, 2026
O livro Maldade Oculta trata de um tema sensível e negligenciado no contexto das igrejas cristãs: a violência doméstica. Não raras vezes, a igreja deixou de reconhecer e de responder de modo bíblico e pastoral ao abuso, contribuindo, ainda que involuntariamente, para a perpetuação do sofrimento das vítimas. Seu propósito, portanto, é duplo: expor esse “mal oculto” e oferecer subsídios para que líderes eclesiásticos desenvolvam uma resposta fiel às Escrituras e sensível às complexidades pastorais envolvidas.

Trata-se de uma obra com clara orientação pastoral apoiada em lúcida reflexão teológica. Davies não pretende apresentar um tratado acadêmico exaustivo, mas combinar estudos de caso, análise bíblica e diretrizes práticas. Seu público principal são pastores, presbíteros e demais líderes de igreja, com implicações para toda a comunidade cristã.
O desenvolvimento do livro se dá, em grande medida, por meio da apresentação de relatos reais de vítimas de abuso. Esses testemunhos são densos e, por vezes, perturbadores, mas cumprem uma função essencial: trazer à luz o caráter frequentemente invisível da violência doméstica no ambiente eclesiástico. Ao dar voz a homens e mulheres que sofreram em silêncio (inclusive em contextos ministeriais), Davies evidencia padrões recorrentes de controle, manipulação, medo e isolamento. Ao mesmo tempo, esses relatos expõem falhas graves na resposta pastoral, revelando situações em que orientações inadequadas, interpretações equivocadas das Escrituras ou mesmo omissão contribuíram para agravar o sofrimento das vítimas.
A partir dessas narrativas, o autor desenvolve sua reflexão teológica, abordando temas que historicamente têm sido mal compreendidos ou mal aplicados em contextos de abuso. Questões como submissão conjugal, liderança no casamento, a natureza da aliança matrimonial e a legitimidade do divórcio são tratadas com o objetivo de corrigir distorções que, em alguns casos, têm servido para justificar ou encobrir comportamentos abusivos. Davies insiste na necessidade de uma leitura bíblica mais cuidadosa, que leve em conta o caráter de Deus, a centralidade de Cristo e a ética do amor sacrificial, evitando interpretações reducionistas ou descontextualizadas.
A parte mais construtiva da obra encontra-se nas orientações pastorais oferecidas pelo autor. Com base tanto nas Escrituras quanto na experiência ministerial, Davies propõe critérios para a identificação de possíveis casos de abuso, alertando para sinais frequentemente ignorados. Ele também adverte contra as respostas simplistas, como a exortação apressada ao perdão ou à reconciliação sem o devido tratamento da situação, e enfatiza a importância de proteger a vítima e buscar a verdade com seriedade. Além disso, o autor oferece reflexões relevantes sobre situações em que a separação ou mesmo o divórcio podem ser considerados à luz de princípios bíblicos, especialmente quando há risco à integridade física ou emocional.
Entre os principais méritos da obra está sua capacidade de trazer à tona um problema que muitos preferem não enxergar. Davies demonstra, de maneira convincente, que a violência doméstica não é uma realidade externa à igreja, mas algo que também se manifesta em seu interior, por vezes encoberto por linguagem religiosa ou por estruturas de autoridade mal compreendidas. Ao fazer isso, o autor presta um serviço importante, chamando a igreja ao arrependimento e à responsabilidade.
Outro ponto digno de destaque é o esforço para integrar teologia e prática pastoral. Diferentemente de abordagens puramente sociológicas, Davies fundamenta sua análise nas Escrituras, lidando com temas doutrinários delicados de modo pastoralmente sensível. Além disso, o uso de estudos de caso confere à obra um caráter concreto e acessível, permitindo que o leitor perceba as implicações reais das questões discutidas.
A contribuição teológica e pastoral de Maldade oculta é significativa. O livro oferece uma importante correção hermenêutica, ao confrontar leituras distorcidas de doutrinas como liderança e submissão, e ao insistir em interpretações que reflitam o caráter de Cristo e a ética do pacto. Ao mesmo tempo, promove uma necessária reorientação pastoral, chamando a igreja a abandonar posturas de autoproteção institucional e a assumir um compromisso mais claro com a justiça, o cuidado dos vulneráveis e a verdade.
Maldade oculta é uma intervenção pastoral relevante e oportuna. Sua principal contribuição está em expor uma realidade frequentemente ignorada e em desafiar a igreja a responder de maneira fiel ao evangelho. Em última análise, a obra nos lembra que a teologia ortodoxa, quando mal aplicada, pode se tornar instrumento de opressão, em vez de meio de graça e restauração.
Por essa razão, trata-se de uma leitura altamente recomendada, especialmente para aqueles que exercem liderança na igreja, como um chamado à vigilância, à compaixão e à fidelidade pastoral.
O Rev. Valdeci Santos, PhD, MDiv e DMin, é Doutor em Teologia e em Aconselhamento Pastoral, dirige o Andrew Jumper, pastoreia a IP de Campo Belo em São Paulo e escreve regularmente para o Brasil Presbiteriano.

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