O dia seguinte não pertence aos vencedores

Jean Marques Regina e Thiago Rafael Vieira · 4–5 min de leitura A eleição terminou. O Brasil, não. Há algo de estranho na maneira como nos acostumamos a acompanhar uma eleição presidencial. Durante meses, consumimos pesquisas, escândalos e confrontos como episódios de um reality show. Escolhemos nossos favoritos, torcemos pela eliminação dos adversários e aguardamos…

Jean Marques Regina e Thiago Rafael Vieira · 4–5 min de leitura

A eleição terminou. O Brasil, não.

Há algo de estranho na maneira como nos acostumamos a acompanhar uma eleição presidencial. Durante meses, consumimos pesquisas, escândalos e confrontos como episódios de um reality show.

Escolhemos nossos favoritos, torcemos pela eliminação dos adversários e aguardamos a apuração como uma grande final. Quando os números aparecem na tela, uns comemoram, outros lamentam, e todos parecem convencidos de que o destino do país foi decidido.

Mas o Brasil continua aqui. Com seus problemas antigos, instituições frágeis e milhões de pessoas que precisarão continuar vivendo juntas, inclusive aquelas que passaram os últimos meses desejando a derrota umas das outras.

Estamos tão preocupados em saber quem ganhou o Brasil que deixamos de perguntar o que estamos fazendo com ele.

Não escrevo isso para sugerir que devemos aceitar tudo como está. Seria uma conclusão cômoda, especialmente diante da realidade institucional brasileira.

Temos instituições que nem sempre inspiram confiança, decisões difíceis de compreender e uma sensação recorrente de que as regras podem mudar conforme quem esteja no poder. Há muitas explicações para termos chegado até aqui. Mas não precisamos concordar sobre todas elas para reconhecer que alguma coisa precisa mudar.

É legítimo questionar processos eleitorais, exigir transparência e mecanismos confiáveis de verificação. Também precisamos enfrentar os riscos de fraude, favorecimento ideológico e captura das instituições por grupos que se perpetuam em posições de influência. Naturalmente, suspeitas exigem provas e procedimentos adequados. A República não se fortalece pela credulidade obrigatória, tampouco pela acusação sem fundamento.

A possibilidade de trocar os governantes é uma garantia fundamental da República. Não porque todo novo governo seja melhor que o anterior, mas porque ninguém pode agir como se tivesse recebido o poder para sempre. As instituições precisam servir ao país, não à permanência de quem as ocupa.

A pergunta decisiva, portanto, não é se nossas instituições merecem críticas. É o que estamos dispostos a fazer para que funcionem melhor daqui a dez ou vinte anos.

Nossa cultura eleitoral, entretanto, parece incapaz de enxergar tão longe. Mal termina uma disputa e já começamos a calcular a próxima. Cada notícia vira munição, cada decisão é interpretada por sua utilidade partidária e cada iniciativa é julgada conforme favoreça ou prejudique nosso lado.

Em vez de construir instituições capazes de sobreviver aos governos, procuramos o próximo governante capaz de resolver tudo. É uma expectativa que nos torna dependentes do próprio poder que deveríamos aprender a limitar.

Um amigo, acompanhando os acontecimentos brasileiros enquanto viajava pelo exterior, fez uma pergunta que permaneceu comigo: independentemente do resultado eleitoral, o que acontecerá com a confiança dos brasileiros nas instituições e, sobretudo, uns nos outros?

A confiança não se recupera por decreto nem por campanhas que nos mandam acreditar nas autoridades. Precisa ser conquistada por instituições que funcionem, regras aplicadas com imparcialidade e cidadãos que não desistam de exigir ambas as coisas.

Mas há outro perigo. Quando a desconfiança institucional se transforma em suspeita permanente sobre quem pensa diferentemente, deixamos de discutir apenas a República e começamos a comprometer a própria convivência.

O adversário político deixa de ser alguém com quem compartilhamos o Brasil e passa a ser alguém de quem precisamos recuperar o Brasil.

Há quase duzentos anos, Alexis de Tocqueville percebeu algo importante ao observar a democracia americana: um país forte depende de cidadãos que sabem se organizar e resolver problemas juntos, sem esperar que tudo venha do governo. Essa lição continua atual. O Brasil não pode depender exclusivamente de Brasília para continuar existindo.

A fé acrescenta outra dimensão a essa responsabilidade. Para os cristãos, a esperança não pode ser confundida com a sorte de um governante, assim como o dever de servir ao próximo não desaparece quando vence alguém de quem discordamos. Nossos princípios precisam ser maiores do que nossos candidatos.

O mesmo horizonte deve orientar famílias, escolas, empresas e associações. O Brasil que deixaremos aos nossos filhos será resultado de muito mais do que as decisões tomadas em Brasília.

Precisamos de reformas, fiscalização independente, transparência, responsabilização e condições reais para a alternância de poder. Mas também de uma cidadania que não confunda participação política com torcida organizada.

Os próximos quatro anos não são um intervalo até a revanche. São quatro anos de nossas vidas. Neles, crianças serão educadas, comunidades enfrentarão dificuldades e novas gerações aprenderão, pelo nosso exemplo, o que significa viver em uma República.

Não proponho uma reconciliação sentimental, na qual todos esquecem suas diferenças e fingem que nada aconteceu. Há conflitos legítimos, abusos a investigar e responsabilidades a cobrar. Continuar não é conformar-se. É recusar que os problemas de hoje tenham a última palavra sobre o país de amanhã.

Uma eleição pode mudar o governo em um dia. Reconstruir instituições e recuperar a confiança de um povo pode levar gerações.

Os vencedores receberam um mandato, não a propriedade do país. Os derrotados conservaram seus direitos e suas responsabilidades. Nenhum deles pode terceirizar às urnas a tarefa de construir o futuro.

O dia seguinte não pertence aos vencedores. Pertence a todos nós.

E, quando chegar a próxima eleição, espero que tenhamos algo mais importante para mostrar do que a lista de nossos acertos e dos erros dos adversários: escolas que melhoraram, instituições mais confiáveis, comunidades mais fortes e um país no qual nossos filhos ainda possam discordar uns dos outros sem se tornarem inimigos.


Jean Marques Regina e Thiago Rafael Vieira

Direito Religioso — Reflexões sobre liberdade, fé e vida pública.

Autor

  • Cativo à Palavra

    Projeto Missionário Teológico e Pastoral.

    Para um coração cativo e dedicado ao Senhor.

Compartilhe isso:

Posts Similares