O lugar do Saltério na piedade cristã reformada: centralidade e uso de outros cânticos na adoração (1)
I – Música, culto e idolatria: a necessidade de regulação divina na adoração Pois de que é capaz um velho coxo senão cantar um hino a Deus? Se eu fosse um rouxinol, eu cantaria os cantos do rouxinol. Se eu fosse um cisne, cantaria os cantos do cisne. Ora, sou um animal racional. Devo…
I – Música, culto e idolatria: a necessidade de regulação divina na adoração
Pois de que é capaz um velho coxo senão cantar um hino a Deus? Se eu fosse um rouxinol, eu cantaria os cantos do rouxinol. Se eu fosse um cisne, cantaria os cantos do cisne. Ora, sou um animal racional. Devo cantar um hino a Deus. Essa é a minha tarefa. Eu a cumprirei. Não abandonarei este posto que me foi dado. – Epicteto (c. 55- c.135 A.D.[1]
1. Música: importância e limites
A música, quer instrumental, quer vocal ou de ambas as formas, sempre esteve presente em todas as expressões de cultura humana. “Não há povo antigo no qual não se encontrem manifestações musicais. […] Não existe linguagem mais instintiva, mais espontânea do que a música”, escreve Alaleona (1881-1928).[2]
Música como ingrediente de todos os cultos
A música sempre fez parte dos cultos pagãos (Dn 3.4-7).[3] Entendia-se que os deuses gostavam de música, havendo, portanto, uma conexão entre a adoração e a música.[4] A flauta era um dos instrumentos populares, inclusive nos cultos,[5] sendo facilmente confeccionada. Em geral, estava associada à alegria (Jó 21.12; 30.31; Sl 149.3; Is 30.29; Mt 11.17; Lc 7.32; Ap 18.22),[6] ainda que não especificamente (Mt 9.23).[7]
Imaginação pecaminosa e idolatria
Durante os quarenta dias em que Moisés e Josué estiveram no monte Horebe o povo de Israel se corrompeu, financiando com prontidão e generosidade a confecção de um bezerro (touro ainda jovem) de ouro para que se transformasse em seu deus ou que representasse a Deus.
Vemos aqui a tentativa humana, desesperada e carnal, de criar seus próprios deuses, atribuindo-lhes virtudes e poder (Êx 32.1-4).[8] Os sinais da presença do Senhor já não bastavam para aquele povo ingrato e rebelde. A imaginação incrédula tornou-se o motor de sua atitude.
Mesmo diante do bezerro de ouro e das palavras: “São estes, ó Israel, os teus deuses, que te tiraram da terra do Egito” (Êx 32.4), o povo não despertou de sua loucura. Estavam habituados às práticas dos egípcios e seduzidos pela idolatria que lhes era familiar.
Por isso, tudo lhes pareceu normal — talvez impulsionados por uma nostalgia ainda recente do passado. Voltar ao Egito permanecia como uma referência constante em sua memória espiritual corrompida (At 7.39).
A libertação física de um povo é mais simples do que arrancar os ídolos do coração. O corpo pode suportar correntes, mas o coração enferma sem seus falsos deuses.
Arão — um “idólatra relutante” ou “sincrético conivente” — tentou impiamente associar a adoração pagã à genuína adoração ao Senhor. Contudo, havia elementos claramente distintos (Êx 32.5-8).
Quando Moisés e Josué desciam do monte Horebe, ouviram cânticos. Nenhum dos dois soube identificar com precisão. Josué interpretou o som como alarido de guerra, provavelmente por sua semelhança com o tipo de clamor coletivo característico dos combates antigos.
Acostumado às batalhas, associou aquele som intenso e indistinto ao ambiente de combate. Esse contexto frequentemente envolvia vozes elevadas e forte agitação.
Moisés, porém, mais experiente, retrucou: não era cântico de vencedores, nem de vencidos, mas voz de canto (Êx 32.17-18). À distância, não era possível discernir plenamente a natureza daquilo.
Ainda assim, o som não correspondia ao padrão de celebração militar conhecido, nem ao tipo de manifestação esperado naquele contexto.
Ao se aproximarem, perceberam tratar-se de uma celebração cúltica ligada à adoração do bezerro de ouro, marcada por entusiasmo coletivo e desordem, distante dos padrões do culto ao Senhor (Êx 32.6,19,25; At 7.41).
Havia ali uma diferença fundamental na forma de cantar. Moisés poderia dizer − cometendo aqui um anacronismo −: “isso parece música de Igreja; não dá para entender a letra por causa da distância, mas é um cântico sacro”. O cântico religioso seria facilmente identificável. No entanto, nada disso foi reconhecido por Moisés ou Josué.
Suponho que deveria ser algo alegre e ritmado, pois, para a guerra, canta-se de modo a impulsionar e estimular os combatentes. Além disso, a descrição aponta para uma reunião festiva: comida, bebida, danças, gritos, diversão e orgia. O povo estava satisfeito com o seu deus e com aquela celebração efusiva (Êx 32.6,17-19).
Na realidade, em sua idolatria, o povo estava estabelecendo uma forma própria de culto. Esse culto era moldado segundo sua disposição interior e tinha como objeto o bezerro de ouro.
Era a expressão visível de um coração corrompido. Como bem sintetiza Ryken: “Nós somos o que adoramos; também somos como adoramos.”[9]
Todo o compromisso solenemente assumido há algumas semanas no mesmo lugar, fora esquecido:
3 Subiu Moisés a Deus, e do monte o SENHOR o chamou e lhe disse: Assim falarás à casa de Jacó e anunciarás aos filhos de Israel: 4 Tendes visto o que fiz aos egípcios, como vos levei sobre asas de águia e vos cheguei a mim. 5 Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então, sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos; porque toda a terra é minha; 6 vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa. São estas as palavras que falarás aos filhos de Israel. 7 Veio Moisés, chamou os anciãos do povo e expôs diante deles todas estas palavras que o SENHOR lhe havia ordenado. 8 Então, o povo respondeu à uma: Tudo o que o SENHOR falou faremos. E Moisés relatou ao SENHOR as palavras do povo. (Êx 19.3-8).
3 Veio, pois, Moisés e referiu ao povo todas as palavras do SENHOR e todos os estatutos; então, todo o povo respondeu a uma voz e disse: Tudo o que falou o SENHOR faremos. 4 Moisés escreveu todas as palavras do SENHOR e, tendo-se levantado pela manhã de madrugada, erigiu um altar ao pé do monte e doze colunas, segundo as doze tribos de Israel. 5 E enviou alguns jovens dos filhos de Israel, os quais ofereceram ao SENHOR holocaustos e sacrifícios pacíficos de novilhos. 6 Moisés tomou metade do sangue e o pôs em bacias; e a outra metade aspergiu sobre o altar. 7 E tomou o livro da aliança e o leu ao povo; e eles disseram: Tudo o que falou o SENHOR faremos e obedeceremos. (Êx 24.3-7).
A música como pedagogia de Deus
Positivamente, vemos que Deus confere à música também um caráter pedagógico. Como Mestre perfeito, Ele lançou mão desse recurso para ensinar sua Lei ao povo. Esse cântico é de origem divina, pois procede da ordem e da revelação do Senhor, mas foi redigido e transmitido por Moisés, que atua como mediador da Palavra de Deus ao povo.
Escrevei para vós outros este cântico e ensinai-o aos filhos de Israel; ponde-o na sua boca, para que este cântico me seja por testemunha contra os filhos de Israel. (…) Assim, Moisés, naquele mesmo dia, escreveu este cântico e o ensinou (למד)(lamad) aos filhos de Israel. (Dt 31.19,22/Dt 32.1-47).
Deus prescreve no Antigo Testamento o modo como deseja ser adorado e, ao mesmo tempo, adverte ao povo de Israel quando se dirigia a Canaã, para que destruísse todos os lugares de culto pagão (Dt 7.5, 16;12.2,3, 29-31/Dt 16.21-17.1-7).
Israel deveria se guardar de aprender as práticas pagãs dos povos estrangeiros: “Quando entrares na terra que o SENHOR, teu Deus, te der, não aprenderás (למד)(lamad) a fazer conforme as abominações daqueles povos” (Dt 18.9). (Ver também Dt 20.18).
A integridade do coração está também vinculada à forma. A hipocrisia consiste justamente em assumir a forma correta — movido por interesses humanos dos mais diversos —, sem, contudo, possuir um coração sincero. Um culto que se limita ao cumprimento externo da lei de Deus é profundamente desolador para o Senhor. O mesmo ocorre quando a adoração visa apenas obter favores divinos. (Is 1.10-17; 29.13; Ml 1.10).
O culto verdadeiro exige não apenas a forma, mas a essência: um coração íntegro, inteiramente voltado para Deus. Sem isso, a liturgia se esvazia e o culto se torna incapaz de agradar ao Senhor. Ainda que seja belo, Deus é justo e não pode ser subornado.[10]
É nesse contexto que o Saltério emerge, não como mera coletânea devocional, mas como forma normativa e divinamente regulada para o culto do povo de Deus.
No Novo Testamento, Estevão, por inspiração divina, interpretando a história de Israel, afirma que durante os quarenta anos no deserto o povo jamais aprendeu a adorar a Deus, ainda que invocasse o seu nome. A forma estava presente, mas o coração permanecia distante:
39 A quem nossos pais não quiseram obedecer; antes, o repeliram e, no seu coração, voltaram para o Egito, 40 dizendo a Arão: Faze-nos deuses que vão adiante de nós; porque, quanto a este Moisés, que nos tirou da terra do Egito, não sabemos o que lhe aconteceu. 41 Naqueles dias, fizeram um bezerro e ofereceram sacrifício ao ídolo, alegrando-se com as obras das suas mãos. 42 Mas Deus se afastou e os entregou ao culto da milícia celestial, como está escrito no Livro dos Profetas: Ó casa de Israel, porventura, me oferecestes vítimas e sacrifícios no deserto, pelo espaço de quarenta anos, 43 e, acaso, não levantastes o tabernáculo de Moloque e a estrela do deus Renfã, figuras que fizestes para as adorar? Por isso, vos desterrarei para além da Babilônia. (At 7.39-43).
Nabucodonosor e a boa música
Em certa ocasião, Nabucodonosor, rei da Babilônia, teve um sonho. Desejando conhecer seu significado e, ao mesmo tempo, temendo ser enganado pelos magos em sua interpretação, exigiu que estes relatassem o próprio sonho e, em seguida, a sua interpretação.
Em grande aperto, os magos tentaram ganhar tempo, pois eram ameaçados de morte caso não revelassem tanto o sonho quanto o seu significado. Por fim, reconheceram sua incapacidade: “A coisa que o rei exige é difícil, e ninguém há que a possa revelar diante do rei, senão os deuses, e estes não moram com os homens” (Dn 2.11).
A reação do rei foi imediata e violenta: “Então, o rei muito se irou e enfureceu; e ordenou que matassem a todos os sábios da Babilônia. Saiu o decreto, segundo o qual deviam ser mortos os sábios; e buscaram a Daniel e aos seus companheiros, para que fossem mortos” (Dn 2.12-13).
Tendo Daniel conhecido a razão do decreto, apresentou-se ao rei e pediu prazo para interpretar o sonho. Juntamente com seus companheiros, buscou a Deus em oração, e o Senhor lhe revelou tanto o sonho quanto o seu significado. Diante disso, Nabucodonosor, tomado de assombro, inclinou-se perante Daniel e reconheceu a grandeza do Deus de Israel (Dn 2.46-47).
Contudo, aquele que tão prontamente reconhecera a soberania divina (Dn 2.47) logo a esqueceu. Mandou então erguer — certamente com propósito religioso e político — uma imagem de ouro, com cerca de trinta metros de altura e três de largura, promovendo sua solene consagração. A cerimônia foi marcada por grande ostentação, inclusive com música cuidadosamente organizada, acompanhada de severa ameaça contra todos os que se recusassem a prestar adoração àquela imagem (Dn 3.1-7).
Calvino (1509–1564), comentando essa passagem, observa:
Os Caldeus pensavam que satisfaziam a Deus quando reuniam muitos instrumentos musicais. Porquanto, como é habitual, avaliaram Deus conforme sua própria intuição. Seja o que for que nos agrade, cremos que será também do agrado de Deus. Daí aquela grande quantidade de cerimônias no papado. Nossos olhos se enchem com tal esplendor e cremos haver cumprido nossa obrigação para com Deus, como se a Sua alegria fosse a mesma que sentimos. Esse é um erro muitíssimo crasso.[11]
Jimi Hendrix e a força da batida no rock
Recordo o testemunho do guitarrista Jimi Hendrix (1942–1970), publicado na revista Life em 3 de outubro de 1969, logo após sua participação no Festival de Woodstock. A reportagem, ilustrada com fotos em estilo quase esotérico, abria com a afirmação: “Jimi Hendrix é um semideus do rock” (p. 73).
Nela, Hendrix falava sobre o efeito hipnotizante do rock: a batida constante criava um estado em que o ouvinte era dominado pelo ritmo, tornando-se mais receptivo à mensagem transmitida. Para ele, a força do rock estava justamente na batida.[12]
Sob a perspectiva reformada, porém, evita-se recorrer a elementos externos ao culto para reforçar a mensagem. O pregador utiliza, de modo inteligente, os recursos bíblicos que Deus lhe concede, mas é o Espírito quem age. Assim, todo recurso para fixar a mensagem deve obedecer aos padrões bíblicos e estar em harmonia com a adoração. Emoções que não nascem da Palavra não se harmonizam com o culto, pois não são teocentricamente produzidas nem dirigidas.
Continua…
São Paulo, 01 de Junho de 2026.
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa
[1]Epicteto, As Diatribes de Epicteto, livro I, Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2020, I.16.20. p. 118.
[2]Domingos Alaleona, História da Música, São Paulo: Ricordi, (1972), edição revista e atualizada pelo tradutor, João C. Caldeira Filho, 1984, p. 38. Isso não significa que concordemos com o autor em sua proposição de que “a linguagem musical, em forma rudimentar, precedeu a linguagem propriamente dita” (p. 38) e o seu espírito antirreligioso em geral. Na realidade, as Escrituras nos dizem que após Deus criar o homem e o colocar no jardim do Éden para o cultivar e guardar (Gn 2.15), incumbiu-lhe de dar nome aos animais (Gn 2.19-20).
[3]“4Nisto, o arauto apregoava em alta voz: Ordena-se a vós outros, ó povos, nações e homens de todas as línguas: 5 no momento em que ouvirdes o som da trombeta, do pífaro, da harpa, da cítara, do saltério, da gaita de foles e de toda sorte de música, vos prostrareis e adorareis a imagem de ouro que o rei Nabucodonosor levantou. 6 Qualquer que se não prostrar e não a adorar será, no mesmo instante, lançado na fornalha de fogo ardente. 7 Portanto, quando todos os povos ouviram o som da trombeta, do pífaro, da harpa, da cítara, do saltério e de toda sorte de música, se prostraram os povos, nações e homens de todas as línguas e adoraram a imagem de ouro que o rei Nabucodonosor tinha levantado” (Dn 3.4-7).
[4] Vejam-se: Johannes Quasten, Music & Worship in Pagan & Christian Antiquity, Washington, D.C.: National Association of Pastoral Musicans, 1983, p. 1ss.; https://brewminate.com/the-function-of-music-in-ancient-greek-cults/ (Acessado em 01.06.2026) e Parcival Módolo, “Impressão” ou “Expressão” O Papel da Música na Missa Romana Medieval e no Culto Reformado: In: Teologia e Vida, São Paulo: Seminário Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição, 1/1 (2005), p. 114.
[5]Cf. Johannes Quasten, Music & Worship in Pagan & Christian Antiquity, p. 2ss. Na Antiguidade, especialmente nos cultos greco-romanos, instrumentos de sopro como o aulo desempenhavam papel central nos rituais religiosos, sendo utilizados em sacrifícios, procissões e festivais. Associado particularmente ao culto de Dionísio, o instrumento contribuía para a criação de um ambiente emocional e extático, servindo como meio de expressão e de aproximação com o divino.
[6] “Visto que as flautas eram muito fáceis de se fazer, e podiam ser construídas de uma variedade de materiais – juncos, canas, ossos etc. – elas eram muitos populares. Segundo os quadros da Antiguidade o revelam, tais flautistas eram amiúde acompanhados de palmas” (William Hendriksen, Mateus, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, v. 1, [Mt 9.23], p. 612). Para uma visão panorâmica do uso de flauta e suas variações, veja-se: Stanley Sade, ed. Dicionário Grove de Música: Edição concisa, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 1994, p. 331-333
[7] “Tendo Jesus chegado à casa do chefe e vendo os tocadores de flauta e o povo em alvoroço, disse: Retirai-vos, porque não está morta a menina, mas dorme….” (Mt 9.23-24).
[8]“1Mas, vendo o povo que Moisés tardava em descer do monte, acercou-se de Arão e lhe disse: Levanta-te, faze-nos deuses que vão adiante de nós; pois, quanto a este Moisés, o homem que nos tirou do Egito, não sabemos o que lhe terá sucedido. 2 Disse-lhes Arão: Tirai as argolas de ouro das orelhas de vossas mulheres, vossos filhos e vossas filhas e trazei-mas. 3 Então, todo o povo tirou das orelhas as argolas e as trouxe a Arão. 4 Este, recebendo-as das suas mãos, trabalhou o ouro com buril e fez dele um bezerro fundido. Então, disseram: São estes, ó Israel, os teus deuses, que te tiraram da terra do Egito” (Êx 32.1-4).
[9]Philip G. Ryken, Estudos bíblicos expositivos em Êxodo, São Paulo: Cultura Cristã, 2022, (Êx 32.1-6), p. 329. “O que nossos pecados externos revelam é a verdadeira condição interna do nosso coração. O pecado não é tanto o que fazemos, mas o que somos” (Philip G. Ryken, Estudos bíblicos expositivos em Êxodo, [Êx 32.1-6], p. 326).
[10] Veja-se: João Calvino, Série Comentários Bíblicos – Gênesis Volume 1, Recife, PE: CLIRE, 2018, (Gn 4.5), 173ss.
[11]João Calvino, O Profeta Daniel: 1-6, São Paulo: Parakletos, 2000, v. 1, [Dn 3.2-7], p. 194. Veja-se João Calvino, As Institutas, Carta ao Rei Francisco I, p. 28. Lutero (1483-1546) enfatizara que, “nem trabalho em pedra, nem boa construção, nem ouro, nem prata tornam uma igreja formosa e santa, mas a Palavra de Deus e a sã pregação. Pois onde é recomendada a bondade de Deus e revelada aos homens, e almas são encorajadas para que possam depender de Deus e chamar pelo Senhor em tempos de perigo, aí está verdadeiramente uma santa igreja” (Jaroslav Pelikan, ed. Luther’s Works, Saint Louis: Concordia Publishing House, 1960, v. 2, [Gn 13.4], p. 332). O eminente teólogo puritano John Owen (1616-1683) em um sermão, disse: “Quão pouco pensam os homens sobre Deus e seus caminhos, se imaginarem que um pouco de tinta e de verniz fazem uma beleza aceitável!” (John Owen, Sermon IV. In: The Works of John Owen, Carlisle, Pennsylvania: The Banner of Truth Trust, 1982, v. 9, p. 78). “Para mim sempre foi patético assistir a um culto nalguma grande igreja quando o que se busca é o efeito produzido por algum tipo particular de edifício” (D. Martyn Lloyd-Jones, A Vida de Paz, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2008, p. 31). É bastante ilustrativo o discurso de Lloyd-Jones por ocasião das comemorações dos 100 anos da Capela de Westminster em 1965. (Veja-se: D.M. Lloyd-Jones, Discernindo os tempos, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1994, p. 238-261).
[12] Na entrevista mencionada, (Revista Life, edição de 3 de outubro de 1969), na reportagem intitulada “An Infinity of Jimis”, assinada pela repórter Robin Richman (1944-2009). e ilustrada com fotografias do chileno Raymundo de Larraín (1931-2012).
O texto apresentava Jimi Hendrix como um “semideus do rock”, descrevendo sua performance em êxtase quase berserk — termo derivado dos guerreiros vikings (berserkers), que lutavam em estado de fúria incontrolável, como se possuídos. A metáfora jornalística indicava que Hendrix parecia entrar em transe criativo e explosivo, dominado pela música, em uma entrega visceral que transcendia os limites normais da performance. A matéria destacava a Experiência Jimi Hendrix como um “tratamento de choque” que o tornara famoso, mas também revelara seus excessos. Hendrix, em entrevista, afirmava desejar abandonar tais exageros e buscar uma dimensão mais espiritual e tranquila para sua vida e música. Ele reconhecia o efeito hipnótico da batida constante, capaz de dominar o ouvinte e facilitar a assimilação da mensagem. As fotografias de Larraín reforçavam essa multiplicidade de identidades ao retratá-lo em um caleidoscópio de espelhos, criando a imagem de “infinitos Jimis”. Essa reportagem, publicada logo após Woodstock (agosto de 1969), consolidou Hendrix como ícone da contracultura e como artista complexo, dividido entre o espetáculo incendiário e a busca por transcendência espiritual.
