Protestantismo Communio

A eclesiologia católica do protestantismo — Peter Leithart   Contrariamente à mitologia que talvez tenhas ouvido dos lábios de apologetas católicos-romanos, a Reforma não foi um movimento individualista, mas um movimento católico e eclesial. Um esforço para restaurar à igreja sua catolicidade, e isto se evidencia de várias formas. Todos os Reformadores confirmavam as declarações…

A eclesiologia católica do protestantismo

— Peter Leithart

 

Contrariamente à mitologia que talvez tenhas ouvido dos lábios de apologetas católicos-romanos, a Reforma não foi um movimento individualista, mas um movimento católico e eclesial. Um esforço para restaurar à igreja sua catolicidade, e isto se evidencia de várias formas.

Todos os Reformadores confirmavam as declarações dos credos de que a igreja é una e católica. Umas tantas citações serviriam de exemplo.

Martin Bucer (citado em John T. McNeill, Unitive Protestantism, 77): “A igreja é a congregação e sociedade daqueles que estão em nosso Senhor Jesus Cristo, reunidos após serem retirados do mundo e agora associados entre si, para que sejam um único corpo e membros uns dos outros; cada um dos quais tem um ofício e trabalho para a edificação comum de todo o corpo e de todos os membros.”

O Catecismo de Genebra, explicando o significado de “católica”, diz: “Esta palavra significa que, assim como há apenas um Cabeça dos fiéis, assim todos devem estar unidos em um só corpo. Portanto, não há várias igrejas, mas apenas uma, que se estende por todo o mundo.”

Calvino: “A verdadeira estabilidade da igreja, a restauração do mundo, consiste nisto: que os eleitos sejam reunidos na unidade da fé, para que, em comum acordo, possam todos elevar seus corações a Deus.” Ele se horrorizava diante da “terrível mutilação do corpo de Cristo” e afirmava que “tamanho é o valor que o Senhor atribui à comunhão de sua igreja, que considera como desertores da religião todos os que, de forma contumaz, alienam-se de qualquer comunidade cristã na qual se preserva o verdadeiro ministério da Palavra e dos sacramentos.”

A ênfase que os Reformadores dedicavam à igreja invisível não eliminava a preocupação com a igreja visível. Pelo contrário, sua ênfase na igreja invisível estava a serviço de seus esforços para a reforma da igreja visível. Isto é, intentavam restaurar a visibilidade da igreja enquanto igreja.

John T. McNeill assim delineia a eclesiologia da “communio” dos Reformadores: “Eles interpretavam o artigo do credo acerca da ‘Santa Igreja Católica’ com base na communio sanctorum, e identificavam esta última tanto com a comunhão invisível dos salvos quanto com a verdadeira igreja visível no mundo, para cuja restauração sentiam-se convocados.” A comunhão “implicava um alto grau de consciência comunitária, uma solidariedade de grupo e o reconhecimento de uma obrigação recíproca de concessão de benefícios religiosos e prestação de serviços sociais.” Tratava-se, pois, de uma comunhão sacramental, “associada ao mistério da Eucaristia, e seus valores estavam calcados na noção do sacerdócio universal do crente, um ofício concebido não de forma individualista, mas num sentido social, como a obrigação de auxiliar o irmão na fé e ‘ser para ele um Cristo’” (pp. 56–57).

Quando os Reformadores apelavam à igreja invisível, como frequentemente faziam, não tinham a intenção de minar o caráter visível da comunhão. A igreja invisível “operava em prol da reforma prática da igreja”, como o ideal em relação ao qual a igreja visível devia ser julgada e como o telos da reforma da igreja visível. McNeill argumenta que, longe de rejeitar a igreja visível, a Reforma foi uma iniciativa de recuperação da genuína forma visível da igreja, a forma de communio. Da perspectiva dos Reformadores, a igreja romana não era visível demais; antes, seu caráter como communio não era nem de longe suficientemente visível.

McNeill expressa-o desta forma: “As qualidades espirituais, que no estado de declínio daquela época haviam aparentemente desaparecido do âmbito externo e que só podiam ser atribuídas à igreja invisível, deveriam tornar-se novamente visíveis à medida que a sociedade visível renovada assumisse o caráter do modelo invisível” (p. 40). Para os Reformadores, “uma reforma ou reavivamento da Igreja […] significa o glorioso aumento de sua visibilidade, a prosperidade de sua contraparte terrena em relação ao modelo celestial” (47). O que era visível na Igreja Católica não era a communio essencial da igreja, a qual, sob uma organização eclesiástica exacerbadamente jurídica e monárquica (como diriam teólogos católicos mais recentes), quase não mais se percebia. A Reforma constituiu-se como uma iniciativa para restaurar a visibilidade de uma forma social que quase havia sido soterrada sob aquilo que os Reformadores consideravam os escombros dos erros de Roma.

Os Reformadores entendiam que seus esforços de reforma eram uma restauração da catolicidade. Ora, que os Reformadores eram os católicos que tinham de defender a ortodoxia e a catolicidade contra o sectarismo da igreja romana era um topos quase universal da retórica da Reforma. Lutero contestou a reivindicação católica de que a catolicidade se definia pela obediência a Roma; e o fez com base no testemunho universal da igreja (p. 65). Calvino defendeu os Reformadores contra a acusação de que eram cismáticos: “Na verdade, os lobos censuram os cordeiros” (citado, p. 73). A Confissão Francesa de 1559 fazia uma distinção entre a verdadeira igreja e “todas as seitas que denominam a si mesmas como a igreja” (citado, p. 80), uma alusão pouco velada a Roma.

McNeill escreve: “A Reforma foi uma revolta não contra o princípio da unidade e da catolicidade, mas contra a monarquia privilegiada e opressora de Roma — uma insurreição não apenas de sentimento nacional, mas do sentimento católico, contra o que havia se tornado um imperialismo localizado e supercentralizado no cristianismo, que impossibilitava a verdadeira catolicidade” (p. 86).

Ora, que isso era mais do que uma manobra retórica fica evidente, ainda que de forma extremada, numa confrontação entre Lutero e Eck na Disputa de Leipzig (1519). Para Lutero:

 

O cristianismo era muito mais vasto que o romanismo. Contrapondo-se a Eck, mencionou a Igreja Grega como prova de que a passagem da “rocha” no Evangelho de Mateus não se aplicava ao papa, cujo vínculo com o “a minha igreja” (no dito de Cristo) é, na verdade, com apenas um de seus seguimentos. Eck tentou desvencilhar-se desse argumento com certo desdém: os gregos, ao se separarem de Roma, dizia ele, foram exilados da fé de Cristo. Lutero voltava insistentemente ao argumento, com a esperança de que Eck, “com modéstia que lhe é própria”, poupasse tantos milhares de santos, já que a Igreja Grega, embora separada de Roma, perdurou e perduraria. Eck, por sua vez, embora evitasse condenar os Pais gregos, tinha pouca esperança de que alguém na Igreja Oriental de sua época se salvasse, exceto os poucos que mantinham obediência a Roma (qui Romanam obedientiam tenent)… As expressões de Eck foram calculadas para estabelecer a diferenciação que havia surgido na mente de Lutero entre “igreja católica” e “obediência romana” (p. 66).

 

Por parte dos Reformadores, essa eclesiologia respaldava-se em ações práticas voltadas à restauração da unidade na igreja como um todo; e, quando isso fracassou, houve, para unificar o movimento protestante, estas iniciativas:

A Concórdia de Wittenberg, 1536 foi um esforço de Bucer e Melâncton para sanar a ruptura entre os Reformadores alemães e suíços, que havia chegado ao ponto mais tenso em 1529 em Marburgo.

Melâncton continuou a buscar a união com os católicos romanos até a década de 1530.

Os Reformadores da linha magisterial aceitavam o batismo católico romano como genuíno. Consideravam a igreja católica romana profundamente falha, sectária e opressora, mas não negavam que o sacramento do batismo nela praticado fosse válido. Consideravam a igreja católica suficientemente eclesial para que possuísse o sacramento do batismo.

A busca pela unidade da igreja é incompatível com certa forma de protestantismo. Isso é verdade. E se vamos obedecer ao imperativo evangélico de estarmos em paz com os irmãos, de amá-los como membros de um único corpo, então precisamos renunciar a certos hábitos da teologia, crença e prática protestantes. Precisamos sim de arrepender-nos dos modos pelos quais negamos o evangelho e minamos nossa amada doutrina da justificação pela fé.

 

Tradução: Fabrício Tavares de Moraes.

Original: Substack — Notes from Beth-Elim.

Autor

  • Cativo à Palavra

    Projeto Missionário Teológico e Pastoral.

    Para um coração cativo e dedicado ao Senhor.

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