Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (38)

3.2. Diversidade na Bíblia      A) Diversidade de línguas A Bíblia foi redigida em dois idiomas básicos: hebraico e grego; sendo o Antigo Testamento escrito em hebraico, tendo apenas algumas porções redigidas em aramaico, a saber: Ed 4.8-6.18; 7.12-26; Jr 10.11; Dn 2.4-7.28 e duas palavras em Gn 31.47. O aramaico tinha o mesmo…

3.2. Diversidade na Bíblia

 

   A) Diversidade de línguas

A Bíblia foi redigida em dois idiomas básicos: hebraico e grego; sendo o Antigo Testamento escrito em hebraico, tendo apenas algumas porções redigidas em aramaico, a saber: Ed 4.8-6.18; 7.12-26; Jr 10.11; Dn 2.4-7.28 e duas palavras em Gn 31.47. O aramaico tinha o mesmo alfabeto hebreu. No tempo de Senaqueribe entre 705 e 681 a.C., o aramaico era um idioma diplomático (2Rs 18.26-28) e a língua oficial do império persa (550-450 a.C.).

Após o cativeiro babilônico do povo judeu (587/586 a.C.), que durou setenta anos, o aramaico passou a ser a língua popular dos judeus, sendo o hebraico cultivado apenas pelos intelectuais.

O Novo Testamento foi escrito na língua grega que, ao contrário da linguagem poética hebraica, zelava pela precisão dos termos, contando com um vocabulário de 200 mil palavras.[1]

 

   B) Diversidade de escritores

A Bíblia foi redigida por cerca de 40 escritores, os quais tiveram uma formação cultural diferente e com suas personalidades próprias.

Moisés, por exemplo, “… foi educado em toda a ciência dos egípcios” (At 7.22).

Amós, era um homem rude, boieiro e colhedor de sicômoros (Am 7.14).

Daniel era da linhagem real de Judá, instruído em toda a sabedoria, douto em ciência e versado no conhecimento (Dn 1.3-7).

Salomão, o grande rei de Israel, a quem coube a honra e a responsabilidade de construir o Templo do Senhor (2Sm 7.12,13; 1Rs 6.1-13), tendo sido reverenciado como o homem mais sábio de todos, até mesmo pelos pagãos (1Rs 4.29-34; 10.1-13).

Mateus, cobrador de impostos (Mt 9.9; Mc 2.13,14; Lc 5.27,28).

Pedro e João, eram pescadores, homens de formação cultural considerada “inadequada” pelos padrões da época (Mt 4.18-22; At 4.13).

Lucas, era médico (Cl 4.14).

Paulo, um intelectual (At 22.3), sendo isto demonstrado em todos os seus escritos, quer pelo conteúdo, quer pela forma.

Todos estes homens, a despeito de suas características pessoais, das suas falhas e limitações, foram usados por Deus para registrar a sua vontade, por intermédio da ação inspiradora do Espírito Santo. Todos eles “falaram da parte de Deus movidos pelo Espírito Santo” (2Pe 1.21).

O estilo deles varia, de acordo com a característica de cada um; entretanto, há uma unidade e coesão em tudo que escreveram.

Ryle (1816-1900) comenta:

Cada um deles fez um relato do homem, de Deus, do caminho da salvação e do coração humano. Vê-se como a verdade é revelada e desenvolvida através deles enquanto se percorre todo o volume de seus escritos, mas nunca se descobre qualquer contradição ou contrariedade real em seus pontos de vista.[2]

 

Soberania da graça

A soberania da graça se manifesta no fato de que Deus escolhe tanto os eruditos quanto os simples, demonstrando que a revelação não depende da capacidade humana. A pluralidade dos escritores bíblicos enriquece a forma literária, mas não compromete a unidade da mensagem. Toda a Escritura aponta para Cristo e é plenamente suficiente para a fé e para a vida.

Além disso, essa variedade de escritores nos lembra que Deus usa pessoas comuns, com suas falhas e limitações, para cumprir seus propósitos eternos. A Bíblia não é fruto de uma escola homogênea de pensamento, mas da ação soberana de Deus que, por meio de homens distintos, registrou sua revelação. Essa diversidade ressalta ainda mais a unidade da mensagem e a centralidade de Cristo, mostrando que a Palavra de Deus é ao mesmo tempo multiforme em expressão e única em conteúdo.

Assim como Deus usou pescadores e reis, Ele também usa nossas vidas simples para testemunhar Cristo.

 

   C) Diversidade de tempos

Entre o primeiro livro do Antigo Testamento e o último do Novo Testamento há uma distância de aproximadamente dezesseis séculos. Ainda assim, os escritores do Novo Testamento citam frequentemente os livros do Antigo, confirmando seus ensinamentos, aplicando-os ao contexto em que viviam e demonstrando o cumprimento das profecias.

Nesse longo período, muitas transformações ocorreram. Os conceitos mudaram, as explicações se modificaram e a compreensão da realidade se ampliou. Mesmo na antiguidade, em que as mudanças eram mais lentas, novos elementos surgiram no cenário da história humana. O campo militar conheceu sucessivos impérios dominadores − egípcios, assírios, babilônios, gregos e romanos. A filosofia avançou dos mitos e lendas aos pré-socráticos, culminando em pensadores como Sócrates (469-399 a.C.), Platão (427-347 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C.), cujas contribuições ainda hoje são respeitadas. No campo jurídico, os romanos estabeleceram princípios que permanecem estudados e aplicados até os nossos dias.

O próprio povo judeu passou por profundas transformações: viveu como escravo no Egito por 430 anos, peregrinou quarenta anos no deserto, foi governado por juízes, teve reis, experimentou a divisão das tribos, sofreu o aniquilamento do Reino do Norte, viu Jerusalém destruída e enfrentou o exílio de setenta anos na Babilônia. Essas experiências trouxeram implicações sociais, econômicas, políticas e religiosas. Contudo, em meio a todas essas vicissitudes, os ensinamentos bíblicos permaneceram coesos e inalterados.

A razão é clara: o Deus que se revelou em Gênesis é o mesmo que se revela em toda a Escritura, coroando sua revelação progressiva no Apocalipse. Jesus Cristo é a Palavra final de Deus: “Havendo Deus, outrora, falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais pelos profetas, nestes últimos dias nos falou pelo Filho a quem constituiu herdeiro de todas as cousas, pelo qual também fez o universo” (Hb 1.1,2).

Toda verdade é verdade de Deus. A verdade divina não sofre correções, modificações ou acréscimos. Ela é atemporal, permanece no tempo e ultrapassa a eternidade (Mt 5.18; Lc 16.17). O Deus que falou a Moisés é o mesmo que falou a João na ilha de Patmos e a todos os escritores sagrados. Assim, a Bíblia, escrita ao longo de séculos por diferentes homens em diferentes contextos, é uma só Palavra, viva e eficaz, revelando o mesmo Deus que reina soberano sobre a história.

Ao contemplarmos os séculos que separam Gênesis de Apocalipse, percebemos que, apesar das mudanças culturais, políticas e filosóficas, a Palavra de Deus permaneceu firme e inalterada. Isso nos ensina que nossa fé não se apoia em circunstâncias mutáveis, mas na verdade eterna do Senhor.

Assim como os escritores bíblicos viveram em contextos diversos − alguns em meio à escravidão, outros em palácios, alguns em tempos de paz, outros em meio à perseguição − todos foram conduzidos pelo mesmo Deus e inspirados pelo mesmo Espírito. Essa realidade nos lembra que, independentemente das transformações do nosso tempo, a verdade de Deus continua suficiente para orientar nossa vida.

Aplicativamente, somos chamados a confiar na Palavra que não passa, a viver com firmeza em meio às incertezas da história e a adorar o Deus que se revelou plenamente em Cristo. Ele é o mesmo ontem, hoje e eternamente (Hb 13.8). Sua revelação não apenas atravessa os séculos, mas também sustenta o nosso cotidiano.

Portanto, diante das mudanças que nos cercam, permaneçamos firmes na Escritura, certos de que o Deus que falou a Moisés e a João continua falando a nós hoje, conduzindo-nos pela sua graça e preparando-nos para a eternidade.

 

3.3. Unidade e coesão das Escrituras

Nada é mais solicitamente intentado por Satanás do que impregnar nossas mentes, ou com dúvidas, ou com menosprezo pelo evangelho. − João Calvino.[3]

Mas, por que citar a luta entre os concílios? Não há por que alguém murmure contra mim dizendo que, no caso de um conflito entre concílios, um deles é ilegítimo. Ora, como avaliaremos isso? Evidentemente, a não ser que eu esteja enganado, decidiremos se os decretos dos concílios são ortodoxos à luz das Escrituras, pois essa é a única regra segura para distingui-los. – João Calvino.[4]

A Bíblia, apesar das diversidades apontadas, revela em seu conteúdo “uma interconexão orgânica que se impõe no decurso dos muitos séculos que sua composição levou”, explica Archer Jr. (1916-2004).[5]

Mesmo havendo diferenças de idiomas, do estilo de cada escritor, dos objetivos específicos de cada livro e do tempo e circunstâncias em que foram escritos, há em todos estes livros que compõem a Bíblia, uma unidade que desafia as tentativas antigas e principalmente modernas de negar a agência de Deus na formação e preservação da sua Palavra escrita.

A unidade e coesão bíblica atestam de forma incontestável a ação de uma mente única, a mente sábia e soberana do próprio Deus, dirigindo os escritores sagrados, sem anular as suas personalidades, para a concretização de sua vontade.

Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra. (2Tm 3.16,17).

Nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação; porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana, entretanto homens santos falaram da parte de Deus movidos pelo Espírito Santo (2Pe 1.20,21).

 

Autoelucidação – Crentes de Bereia

Devido a esta unidade coesa, a Escritura se autoelucida (interpreta) por meio da comparação dos textos (At 15.12-21; Jo 5.46). Foi justamente isso que fizeram os crentes de Bereia, que receberam a pregação de Paulo e Silas com avidez e, entretanto, conferiram o que era pregado com as Escrituras para ver se coincidiam (At 17.11). O resultado foi que por intermédio desse exame sincero e criterioso, sob a iluminação do Espírito Santo, muitos se converteram (At 17.12).

Assim como os crentes de Bereia conferiram as Escrituras, também nós devemos confrontar as mensagens que ouvimos com a Palavra.

A Confissão de Westminster (1647) no Capítulo 1, seção 9, diz:

A regra infalível de interpretação da Escritura é a mesma Escritura; portanto, quando houver questão sobre o verdadeiro e pleno sentido de qualquer texto da Escritura (sentido que não é múltiplo, mas único), esse texto pode ser estudado e compreendido por outros textos que falem mais claramente. (Mt 4.5-7; 12.1-7).

A unidade orgânica da Bíblia, preservada ao longo de séculos e por meio de diferentes autores, nos lembra que a Palavra de Deus é viva, coerente e suficiente. Se os crentes de Bereia foram elogiados por examinarem as Escrituras com diligência, também nós somos chamados a fazer da Bíblia a regra infalível de fé e prática.

Isso significa que, diante das muitas vozes e interpretações do nosso tempo, devemos voltar sempre ao texto inspirado, deixando que a própria Escritura ilumine a Escritura. A Palavra não é fragmentada, nem contraditória; ela é clara, coesa e centrada em Cristo.

Somos desafiados a cultivar uma vida de leitura criteriosa e reverente da Bíblia, confiando que o mesmo Espírito que inspirou os autores sagrados é quem hoje ilumina nosso entendimento. Assim, nossa fé não se apoia em opiniões humanas, mas na verdade eterna de Deus, que permanece para sempre.

Portanto, ao reconhecermos a unidade e a inspiração da Escritura, somos chamados a viver em submissão à sua autoridade, a interpretar com humildade e a aplicar com fidelidade, certos de que nela encontramos tudo o que é necessário para a vida e para a piedade.

A unidade da Escritura nos lembra que nossa fé não repousa em opiniões humanas, mas na Palavra viva de Deus, que aponta sempre para Cristo e permanece firme para toda a eternidade.

 

3.4. A Harmonia dos Evangelhos

Não examinamos o Antigo Testamento apenas para encontrar os antecedentes históricos de Cristo e de seu ministério, nem mesmo para buscar referências que façam previsões sobre ele. Temos de encontrar Cristo no Antigo Testamento – não aqui e ali, mas em toda parte. −  R. Albert Mohler Jr.[6]

 

   A) Um ou quatro Evangelhos?

Quando falamos que a Bíblia tem quatro evangelhos, na realidade, estamos dizendo que há quatro registros feitos por Mateus, Marcos, Lucas e João, conforme encontramos no Novo Testamento.

O Novo Testamento desconhece a forma plural “Evangelhos” – ainda que ela seja usada na Septuaginta ta eu)agge/li/a (2Sm 4.10), “recompensa pelas boas novas” e ”h( eu)aggeli/a” (2Sm 18.20,22,25,27; 2Rs 7.9) -, isto porque o Evangelho é um só. Se alguém proclamar outro, seja considerado “anátema” (= maldito) (Gl 1.8,9).

Harrison (1902-1999), comentando a respeito dos registros evangélicos, observou acertadamente que, “Aos olhos da igreja primitiva estes documentos eram virtualmente um. Juntos, eles abarcavam o evangelho único, que foi diversamente expressado por Mateus, Marcos, Lucas e João. O feito de Cristo foi a causa de um novo tipo de literatura”.[7] As quatro narrativas são na realidade uma descrição inspirada do mesmo e único Evangelho; biblicamente falando, “evangelhos” é uma contradição de termos. Não há outro Evangelho (Gl 1.6-9).

A forma plural referindo-se aos registros de Mateus, Marcos, Lucas e João, só é documentada a partir de Justino, o Mártir (100-167 AD), que por volta do ano 155 AD., na sua obra Primeira Apologia, descrevendo a Santa Ceia e o seu significado, escreveu: “Os Apóstolos nas Memórias por eles escritas, que se chamam Evangelhos, nos transmitiram….”.[8]

Estes registros, ao que parece, a partir do segundo século receberam o nome de “evangelhos” (forma plural). Todavia, quando dizemos que a Bíblia tem um só Evangelho, estamos afirmando que o conteúdo, a Mensagem bíblica é uma só; por isso, nela, na Escritura Sagrada, só há um Evangelho.

Foi nesse sentido que Paulo escreveu:

Mas, ainda que nós, ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema. Assim como já dissemos, e agora repito, se alguém vos prega evangelho que vá além daquele que recebestes, seja anátema. (Gl 1.8,9).[9]

 

   B) Harmonia na autoria

Conforme vimos, a Bíblia foi escrita por cerca de 40 escritores; entretanto, na realidade, há somente um Autor: Deus é o Autor da Escritura, do Evangelho. Conforme escreveu Packer (1926-2020), “A Bíblia apesar de ser um livro humano, que fala de pecado e do erro e em muitos lugares da fraqueza dos seus autores, não deixa de ser, acima de tudo, uma obra divina, cujo autor primário é Deus”.[10]

Pink (1886-1952) raciocina de modo semelhante, quando diz: “A imagem divina se acha estampada em cada uma das páginas. Escritos tão santos, tão celestiais, tão profundamente criadores de temor não poderiam ser produzidos pelos homens”.[11]

A Bíblia atesta em diversos textos a origem divina de seu conteúdo (Is 30.1,8; Jr 30.2; 36.2; Hc 2.2; Mt 19.4,5; At 4.25,26; Hb 1.6; 3.7-19; 2Pe 1.20,21; Ap 1.19; 14.13; 21.5, etc.).[12]

Deus registrou a sua Palavra por meio de Moisés, Josué, dos Profetas, de Davi, Salomão, dos Apóstolos, enfim, por intermédio de todos os escritores sagrados. A harmonia da revelação de Deus está presente em todas as páginas da Bíblia. Em Cristo temos a revelação de Deus e o genuíno intérprete do Pai.[13]

Ryle (1816-1900) avalia: “Vê-se como a verdade é revelada e desenvolvida através deles (os escritores) enquanto se percorre todo o volume de seus escritos, mas nunca se descobre qualquer contradição ou contrariedade real em seus pontos de vista”.[14] A Bíblia é a verdade inerrante e harmoniosa de Deus, produzida por Ele mesmo!

 

   C) Harmonia no tema

Do começo ao fim, a Bíblia guia-nos para o nome de Jesus Cristo. – Karl Barth.[15]

A Escritura não nos deixa vagar ao sabor da imaginação, formulando um deus conforme nossas preferências ou tendências modernas. Pelo contrário, ela é direta e específica em apresentar o Deus verdadeiro em sua natureza real.

Jesus Cristo é o tema central das Escrituras. Como escreveu Graham (1918-2018), “Jesus Cristo em si é a mensagem eterna da Bíblia”.[16] De Gênesis a Apocalipse, sua pessoa e obra permeiam toda a revelação, tornando a Bíblia essencialmente cristocêntrica.[17]

De Gênesis a Apocalipse, a pessoa e a obra de Cristo estão presentes. O Antigo e o Novo Testamento convergem nele: em Gênesis encontramos o prenúncio da sua primeira vinda. Em Gn 3.15, o protoevangelium, “as primeiras palavras da graça a um mundo perdido”, como pontuou Law (1797-1884).[18]   No Apocalipse, vemos a vitória final do Cordeiro. “Os dois Testamentos formam uma unidade orgânica, que se completam mutuamente num harmonioso testemunho de Cristo”, comenta  Packer (1926-2020). [19]

Filipe, quando encontrou Natanael, disse-lhe o seguinte a respeito de Jesus: “Achamos aquele de quem Moisés escreveu na lei, e a quem se referiam os profetas, Jesus, o Nazareno, filho de José” (Jo 1.45).

O próprio Senhor Jesus Cristo ensinou esta verdade, dizendo que Moisés escreveu a seu respeito (Jo 5.45,46). Jesus afirma que as profecias de Isaías se cumpriram nele (Lc 4.16-21/Is 61.1,2) e, após a sua morte e ressurreição, ele mesmo fez um resumo da mensagem que pregara durante o seu ministério, assim falando aos seus discípulos: “… São estas as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco, que importava que se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Lc 24.44. Leia também os versículos 45 e 46). A lei, pela ação do Espírito, nos conduz pedagógica e salvadoramente a Cristo (Gl 3.24).

Pedro, juntamente com os demais discípulos, pôde entender esta mensagem. Mais tarde, no seu discurso, Pedro fala ao povo mostrando que mais de mil anos antes, Davi já escrevera a respeito de Jesus Cristo (At 2.25-28/Sl 16.8-11. Leia também: 1Co 15.3,4).

A constatação de Jesus Cristo, procede do fato de que toda a Escritura aponta para Ele. “Examinais as Escrituras porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim” (Jo 5.39).

Pink (1886-1952), conclui:

As Escrituras testificam acerca de Cristo como o único Salvador dos pecadores que perecem, como único Mediador entre Deus e os homens, como o único por intermédio de quem nos podemos aproximar de Deus Pai. Elas testificam, igualmente, acerca das admiráveis perfeições de Sua pessoa, das glórias variegadas de Seus ofícios, da suficiência de Sua obra terminada. À parte das Escrituras, Cristo não pode ser conhecido. Somente por meio delas é que Ele é revelado.[20]

“Jesus Cristo é o cumprimento de todas as profecias e promessas do Velho Testamento”, afirma Lloyd-Jones (1899-1981).[21] De passagem, devemos dizer que o fato mais importante concernente à adoração no Novo Testamento é a centralidade de Jesus Cristo,[22] aquele que é o cumprimento das promessas e profecias do Antigo Testamento, sendo o Senhor, o único e definitivo Mediador da Aliança selada entre Deus e o seu Povo. A visão desta Aliança é a chave que abre as portas para a compreensão de toda teologia bíblica. A Pessoa de Cristo é o elo que une os dois Testamentos.[23] Em suma, Jesus Cristo é o fundamento da verdadeira adoração a Deus.

A Bíblia é como um rio que nasce em Gênesis e deságua no Apocalipse, mas em todo o percurso aponta para Cristo. Essa imagem nos ajuda a perceber que, embora os livros tenham contextos distintos, todos fluem para a mesma direção: revelar o Senhor Jesus.

O Cristianismo de forma singular tem o seu fundamento não em uma doutrina ou em um ensinamento ou em um código de conduta, mas, em uma pessoa, Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.[24] A encarnação é toda e inclusivamente missionária: o Verbo fez-se carne e habitou entre nós (Jo 1.14).

Bavinck (1854-1921) corretamente destaca a singularidade de Cristo para o Cristianismo:

Ele ocupa um lugar completamente único no Cristianismo. Ele não foi o fundador do Cristianismo em um sentido usual, ele é o Cristo, o que foi enviado pelo Pai e que fundou Seu reino sobre a terra e agora expande-o até o fim dos tempos. Cristo é o próprio Cristianismo. Ele não está fora, Ele está dentro do Cristianismo. Sem Seu nome, pessoa e obra, não há Cristianismo. Em outras palavras, Cristo não é aquele que aponta o caminho para o Cristianismo, Ele mesmo é o caminho.[25]

Jesus Cristo é o tema que atravessa toda a Escritura.[26] Ele é apresentado como aquele que viria, aquele que veio e aquele que retornará (At 1.11). “Há um Salvador que deve vir. Há um Salvador que já veio. Há um Senhor onipotente que virá de novo. E este vasto tema há produzido surpreendente e admirável unidade na diversidade da revelação nas páginas das Sagradas Escrituras”, exulta Criswell.[27]

Assim, toda pregação que se diga cristã, mas que não toma a Cristo como o centro da sua mensagem, não expressa o verdadeiro ensinamento do Evangelho; portanto, deve ser rejeitada.[28]

Calvino resume:

Ninguém jamais aprenderá o que Cristo é, ou o propósito de suas ações e sofrimentos, salvo pela orientação e ensino das Escrituras. Até onde, pois, cada um de nós deseja progredir no conhecimento de Cristo, teremos que meditar bastante e continuamente sobre a Escritura.[29]

A Bíblia, em toda a sua extensão, revela uma harmonia orgânica que converge para uma única realidade: Jesus Cristo. De Gênesis a Apocalipse, Ele é apresentado como aquele que viria, aquele que veio e aquele que retornará. O Antigo Testamento anuncia e prepara; o Novo Testamento confirma e cumpre. Assim, Cristo é o centro da revelação, o elo que une os dois Testamentos e o fundamento da verdadeira adoração.

Pastoralmente, isso nos ensina que nossa fé não se apoia em ideias humanas, códigos de conduta ou tradições, mas em uma pessoa viva: o Senhor Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Ele é o Mediador da Nova Aliança, o cumprimento das promessas e profecias, e o próprio Cristianismo.

Por isso, toda pregação, ensino ou prática cristã deve ser cristocêntrica. Se Cristo não é o centro, não há Evangelho. Portanto, somos chamados a meditar continuamente nas Escrituras, pois somente nelas Cristo é revelado em sua plenitude. Essa centralidade nos dá segurança, clareza e propósito: viver para Cristo, anunciar Cristo e esperar a volta de Cristo.

Em síntese: Cristo é o fio condutor da Bíblia e da vida cristã. Ele é o tema que sustenta nossa fé, orienta nossa prática e alimenta nossa esperança.

 
Maringá, 23 de Julho de 2026.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


 

[1] Embora o hebraico disponha de um vocabulário mais restrito (menos de 10 mil palavras) em comparação ao grego (cerca de 200 mil palavras). (W. Barclay, El Nuevo Testamento Comentado, Buenos Aires: La Aurora, 1974, v. 5, p. 35), ambos foram plenamente suficientes para transmitir a revelação divina em seus respectivos contextos.

[2] J.C. Ryle, A Inspiração das Escrituras, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, [s.d.], p. 3.

[3] João Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, [Ef 1.13], p. 35.

[4] João Calvino, As Institutas [2022], IV.9.9.

[5] Gleason L. Archer Jr.,  Merece Confiança o Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1974, p. 15.

[6] R. Albert Mohler Jr.  Estudando as Escrituras para encontrar Jesus: In: D.A. Carson, org.  As Escrituras dão testemunho de mim, São Paulo: Vida Nova, 2015, p. 18.

[7]E.F. Harrison, Introducción al Nuevo Testamento, Grand Rapids, Michigan: Subcomision Literatura Cristiana, 1980, p. 132.

[8]Justino de Roma, I Apologia, São Paulo: Paulus, 1995, 66, p. 82. (Ver: Eusebio de Cesarea, Historia Eclesiástica, Madrid: La Editorial Catolica, S.A.  (Biblioteca de Autores Cristianos), 1973, III.37.2. p. 187; V.8.2ss. p. 296ss.). Devemos observar, que, mesmo fora dos escritos do Novo Testamento, a palavra evangelho continuou sendo usada no sentido singular. Por exemplo: No Didaquê, obra anônima publicada por volta do ano 100 d.C.  lemos: “E não oreis como os hipócritas, mas como o Senhor os mandou em Seu Evangelho….” (Didaquê, VIII.2) (Vejam-se também, Inácio de Antioquia (c. 30-110), Epístola aos Filadélficos, V.1-2; VIII.2; IX.2; Epístola aos Esmirnenses, V.1; VII.2. In: Cartas de Santo Inácio de Antioquia, 3. ed. São Paulo: Vozes, 1984; Irineu, Irineu de Lião, São Paulo: Paulus, 1995, IV.20.6; Eusebio de Cesarea, Historia Eclesiástica, V.24.6.

[9]“Admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho (eu)agge/lion), o qual não é outro, senão que há alguns que vos perturbam e querem perverter o evangelho (eu)agge/lion) de Cristo. Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho (eu)aggeli/zw) que vá além do que vos temos pregado, seja anátema. Assim, como já dissemos, e agora repito, se alguém vos prega evangelho (eu)aggeli/zw) que vá além daquele que recebestes, seja anátema” (Gl 1.6-9).

[10]J.I. Packer, Revelação e Inspiração: In: F. Davidson, ed. O Novo Comentário da Bíblia, 2 ed. São Paulo: Vida Nova, 1976, p. 29.

[11] A.W. Pink, Enriquecendo-se com a Bíblia, São Paulo: Fiel, 1979, p. 29.

[12] Quanto a um tratamento mais detalhado sobre o testemunho interno das Escrituras a respeito da sua inspiração e inerrância, veja-se: Hermisten M.P. Costa, A Inspiração e Inerrância das Escrituras: Uma Perspectiva Reformada, 2. ed. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2008, passim.

[13]João Calvino, O Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 3.13), p. 129.

[14]J.C. Ryle, A Inspiração das Escrituras, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, [s.d.], p. 3.

[15]K. Barth, Church Dogmatics, Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 2010, II/2, p. 53.

[16] Billy Graham, Em Paz com Deus, Rio de Janeiro: Record, © 1984, p. 29. “O tema central de toda a Bíblia é Jesus Cristo, o Redentor de todos os que o invocam. […]  Jesus Cristo crucificado é o tema que unifica toda a Escritura” (Steven J.  Lawson, O tipo de pregação que Deus abençoa,  São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2013, p. 27-28). Do mesmo modo, ver: Alister E. McGrath, Paixão pela Verdade: a coerência intelectual do Evangelicalismo, São Paulo: Shedd Publicações, 2007, p. 23.

[17] Veja-se: John Stott, Tu, Porém, A Mensagem de 2 Timóteo, São Paulo: ABU. (Coleção A Bíblia Fala Hoje), 1982, p. 98.

[18]Henry Law, O Evangelho em Gênesis, São Paulo: Editora Leitor Cristão, 1969, p. 33.

[19]J.I. Packer, Revelação e Inspiração: In: F. Davidson, ed. O Novo Comentário da Bíblia, 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 1976, p. 30. Em outro lugar, Packer escreve: “Da mesma forma que o Antigo Testamento, sem o evangelho cristão é um alicerce sem o edifício, assim também o evangelho cristão sem o Antigo Testamento é um edifício sem alicerce” (J.I. Packer, Vocábulos de Deus, São Paulo: Vida Nova, 1994, p. 29).

[20] A.W. Pink, Enriquecendo-se com a Bíblia, p. 28-29. Do mesmo modo, McGrath: “A Escritura está literalmente centrada em Cristo e Cristo está nela envolvido. Só por meio da Escritura Ele pode ser conhecido. Quando interpretada corretamente, a Escritura conduz a Cristo, que, só por intermédio da Escritura pode ser apropriadamente conhecido” (Alister E. McGrath, Paixão pela Verdade: a coerência intelectual do Evangelicalismo, São Paulo: Shedd Publicações, 2007, p. 46).

[21] D.M. Lloyd-Jones, Deus o Pai, Deus o Filho, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1997 (Grandes Doutrinas Bíblicas, v. 1), p. 317.

[22] Cf. John M. Frame, Worship in Spirit and Truth, Phillipsburg, NJ.: P & R. Publishing, 1996, p. 25ss.

[23]Ver: Confissão de Westminster, VII.6. Semelhantemente Calvino interpreta: “Portanto, seja este um sólido princípio: não se deve ter outra Palavra de Deus, a que se dê lugar na Igreja, senão aquela que está contida primeiro na Lei e nos Profetas, depois nos Escritos Apostólicos; nem ter outro modo de ensinar a Igreja corretamente, senão aquele prescrito e normativo dessa Palavra.”  (João Calvino, As Institutas [2022], IV.8.8).

[24] Veja-se: Alister E. McGrath, Paixão pela Verdade: a coerência intelectual do Evangelicalismo, São Paulo: Shedd Publicações, 2007, p. 23, 32-33.

[25]Herman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara d’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 311.

[26]“Jesus Cristo crucificado é o tema que unifica toda a Escritura” (Steven J. Lawson, O tipo de pregação que Deus abençoa, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2013, p. 28).

[27] W.A. Criswell, A Bíblia para o Mundo de Hoje, Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1968, p. 31.

[28]“Todo e qualquer movimento ou ensino que não faça do Senhor Jesus Cristo e Sua morte na cruz, e Sua gloriosa ressurreição, uma necessidade absoluta e absolutamente central, não é cristão, e sim, uma manifestação das ‘astutas ciladas do diabo’.” (D. Martyn Lloyd-Jones, O Combate Cristão, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1991, p. 128). “Cristo é tanto o centro como a circunferência, Ele é tudo, tudo se cumpre nele” (D. Martyn Lloyd-Jones, As Insondáveis Riquezas de Cristo, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas,1992, p. 70).

[29]João Calvino, O Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 2.17), p. 100.

Autor

  • Cativo à Palavra

    Projeto Missionário Teológico e Pastoral.

    Para um coração cativo e dedicado ao Senhor.

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